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Você sabe quem são algumas das mulheres mais prejudicadas pelo Patriarcado?

Atualizado: Mar 18

Este texto traz algumas referências para um pensamento introdutório de algumas das mulheres que, na escala de privilégios, são as mais prejudicadas pelo Patriarcado e que, por esta razão, muitas vezes de encontram em vulnerabilidade social.


Texto de Micaela Alexandra

para íntimo colorido COLETIVO


A vulnerabilidade social perante a qual pretendemos nos referir pressupõe a “(…) predisposição que um dado grupo tem para ser afetado, em termos físicos, económicos, políticos ou sociais, no caso de ocorrência de um processo ou ação desestruturante" (Tavares, 2011), podendo ser de origem natural ou produzida pelo próprio homem.

A vulnerabilidade pode ser descrita como uma determinada fragilidade perante algo ou, até mesmo, como uma fraqueza. Porém, a vulnerabilidade social dos mais diversos grupos de mulheres que viremos a abordar jamais se deve restringir a uma noção de fragilidade quando, na verdade, iremos constatar que são mulheres muito resilientes e fortes, pelo fato de enfrentaram diariamente as mais adversar situações de precariedade. Consideramos importante, portanto, trazer a visibilidade para algumas das mulheres que se encontram em grupos mais propensos a ser afetados por esta mesma vulnerabilidade – contudo, consideramos necessário sempre voltar a referir que em altura alguma devem ser consideradas como mulheres incapazes ou fracas, visto que tem em si a capacidade de se erguerem e reerguerem mesmo que a sua existência sofra constantes tentativas de diminuição e/ou opressão numa sociedade formatada para tal efeito.


Mulheres trans

Ao colocarem em causa a concepção tradicional e conservadora de que o género seria definido exclusivamente através do sexo imposto ao nascimento, as mulheres transsexuais encontram-se em uma grande situação de vulnerabilidade sendo que, em diversas ocasiões, são relatadas situações de humilhação, discriminação, perseguição e, inclusive, violência. Existe um enorme estigma para com estas que são caraterizadas como “um travesti, um homem com mamas” mas nunca vista como mulheres. As próprias ativistas relatam que, nestes anos todos, “muito pouca coisa mudou no dia a dia das pessoas trans ” (Crespo, 2015). Torna-se assustador pensar que, em 2018, 163 pessoas trans foram assassinadas – sendo este um número inferior ao que foi dado a conhecer em 2017 – mas que, curiosamente, “houve um aumento no número de crimes não noticiados pela mídia (...) Cerca de 30% dos 163 crimes cometidos no ano passado não foram noticiados em nenhum veículo de comunicação” (Antunes, 2019). As mulheres trans vivem uma realidade equivalente a um efeito bola de neve na medida em que todo o processo de autodescobrimento e transição pode gerar o abandono familiar que, por sua vez, pode provocar dificuldades económicas (inclusive, a dificuldade perante a empregabilidade) podendo vir a gerar a condição de sem-abrigo que as entrega às ruas e ao desespero. Para além dos abusos e crimes cometidos por outros, esta realidade aumenta os casos de doenças mentais e consequentemente contribui para a taxa de suicídio.



Mulheres idosas

Após uma existência condicionada pela sociedade patriarcal e pelas desigualdades, as mulheres idosas vêem-se a lidar com as consequências de algo que as transcendia. Estudos revelam que as mulheres acima dos 65 anos são o grupo mais afetado pelo risco de pobreza que toca nos 24% e isto pode ser explicado pelos salários mais baixos que os dos homens que geram pensões mais baixas (Observatório Luta contra a Pobreza na cidade de Lisboa, 2010). “ Estas razões estão muito associadas a trajetórias sociais, económicas e profissionais precárias que muitas destas mulheres viveram na sua juventude. O ciclo reproduz-se na velhice. Estas mulheres acumulam vulnerabilidades de fases anteriores da sua vida – que trazem de experiências socioprofissionais precárias – e que depois se refletem na velhice ” (Cardoso, 2019) – nesta linha de raciocínio, é fácil de entender a predisposição à vulnerabilidade ao abuso psicológico (que pode ser revelado através, por exemplo, da tóxica dependência financeira) que tanto impacto tem na saúde mental e que pode ser tão mortífero como o abuso físico.



Mulheres negras

As mulheres negras – que deram voz ao principio da necessidade de compreender as diferentes realidades – viram-se incompreendidas e negligenciadas pelo próprio movimento sufragista que era maioritariamente liderado por mulheres brancas que se encontravam tão concentradas nos seus próprios direitos que ignoraram as mais diversas opressões que ocorriam (Bravo, 2016). A escravatura e a época após a escravatura mantinham a mulher negra numa posição desumanizada em que, basicamente, a sua existência estava condenada a servir sendo que este pensamento ainda continua presente na mente de todos aqueles que se recusam a dar a igualdade a quem não tenha o mesmo tom de pele que o seu. Atualmente a sua média salarial ainda continua a ser “59% inferior à dos homens brancos e 41,8% inferior à das mulheres brancas” (Tinoco, 2019) o que fundamenta a vulnerabilidade destas mulheres ao desemprego.



Mulheres deficientes

Encontramos uma voz silenciada nas mulheres com deficiência que são tratadas, muitas vezes, não como cidadãs de pleno direito, mas sim como obras de caridade que se encontram submissas à vontade alheia dos seus familiares e cuidadores. Estas mulheres, para além da dificuldade em acederem ao sistema de justiça, encontram-se afastadas das estatísticas que não revelam algumas violências que estas sofrem como, por exemplo, a privação da mobilidade ou deturpação das doses de medicação necessária (Ribeiro, 2017). Contudo, as violências acima mencionadas são apenas uma pequena parcela das dificuldades que estas encaram e podemos ter como mais exemplos destas, além do fraco desenvolvimento arquitetónico que continua a condicionar em pleno século XXI a mobilidade e acessibilidade, queremos chamar atenção para as situações de abuso sexual que, por sua vez, podem ser confundidos com "demonstrações de afeto". Existe uma negligência constante da parte da legislação nacional e internacional que são expostas como “barreiras sistémicas aliadas ao fracasso em priorizar a coleta de dados sobre a situação das mulheres e meninas com deficiência (…) continuam a perpetuar sua invisibilidade e marginalização” (UN Women, 2018).



Projetos Sociais de Empoderamento

O que significa, portanto, o empoderamento destas mulheres? O empoderamento destas mulheres significa, nada mais e nada menos, do que o empoderamento de todas pois o empoderamento transcende o nível individual - este empoderamento de todas significa que se pretende alcançar a igualdade social, económica e política através de conhecer e de dar a conhecer as necessidades daquelas que estão condicionadas pelas vulnerabilidades difundidas pela escassa intervenção e constante branqueamento da sua situação. Não é necessária formação superior para tomar uma posição, é necessário olhar para a realidade e perceber o seu impacto e de que forma a “nossa bagagem” pode ser uma mais-valia, mas sempre tendo em mente que o desenvolvimento de um projeto deve ser realizado em conjunto “com” essas mulheres e não somente “para” as mulheres. A não esquecer: essas mulheres devem ser questionadas se precisam e/ou querem, de facto, tal ajuda pois as ações de suposta solidariedade não devem, nem podem ser feitas com base no que achamos ser o melhor para as elas, para depois as deixarmos com algo que não pediram apenas para garantir a leveza da nossa consciência.

Referências

Antunes, L. (29 de janeiro de 2019). Brasil matou 163 pessoas trans em 2018; Mais da metade foi morta por arma de fogo. Obtido de Huffpost Brasil: https://www.huffpostbrasil.com/entry/morte-transexuais-2018_br_5c4f27dee4b0e1872d4641f1?guccounter=1&guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&guce_referrer_sig=AQAAAI22ol7vrRpaLN0yN0hp1pfoqsJXKYCpkIRnD8HPwqmhQ0_zsFbTox0WNXkuO1JJpVZ66n6SKkcW7x0lB1r8cN

Bravo, T. (3 de dezembro de 2016). “Mulheres, raça e classe” de Angela Davis, uma reflexão. Obtido de Medium: https://medium.com/neworder/mulheres-raca-e-classe-angela-davis-boitempo-uma-reflexao-89065087d211

Cardoso, M. D. (4 de janeiro de 2019). Mulheres são mais vulneráveis na velhice por desigualdades “acumuladas” ao longo da vida. Obtido de PÚBLICO: https://www.publico.pt/2019/01/04/sociedade/entrevista/mulheres-sao-vulneraveis-velhice-desigualdades-acumuladas-longo-vida-1856585

Crespo, E. A. (4 de maio de 2015). Arquivo Queer. Obtido de https://vimeo.com/126860099?fbclid=IwAR3pS_ZvUTpKjBKG4MMRSjd00Dn4qRF4tuFbsgj_UoDajudN9o2sfS01F40

Observatório Luta contra a Pobreza na cidade de Lisboa. (22 de março de 2010). Mulheres idosas vulneráveis à pobreza. Obtido de Observatório Luta contra a Pobreza na cidade de Lisboa: https://observatorio-lisboa.eapn.pt/mulheres-idosas-vulneraveis-a-pobreza/

Ribeiro, B. (16 de março de 2017). Violência para com Pessoas Vulneráveis. O Espectro, 20. Obtido de https://issuu.com/oespectro/docs/26___edi____o_de_o_espectro

Tavares, J. M. (2011). Risco, vulnerabilidade social e cidadania. Revista Crítica de Ciências Sociais. Obtido de http://journals.openedition.org/rccs/173

Tinoco, D. (9 de março de 2019). Mulheres negras, as mais vulneráveis entre as mais vulneráveis. Obtido de El País: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/08/opinion/1552066061_520180.html

UN Women. (2018). The Empowerment of Women and Girls with Disabilites: Towards Full and Effective Participation and Gender Equality. Obtido de https://www.unwomen.org/-/media/headquarters/attachments/sections/library/publications/2018/empowerment-of-women-and-girls-with-disabilities-en.pdf?la=en&vs=3504






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